Quem se apaixona repetidamente ama o amor e não a outra pessoa

O bebê, de início, não é capaz de amar, apenas recebe o amor da mãe. Quando ele amadurece, aprende a compartilhar o sentimento. Alguns adultos, no entanto, continuam reproduzindo aquele amor de bebê: em vez de amar os parceiros, amam apenas o amor que eles lhes têm. Esse tipo de paixão, naturalmente, dura pouco. Por isso o amante imaturo se apaixona tantas vezes.

Algumas pessoas necessitam estar permanentemente apaixonadas. Elas se apaixonam, após algumtempo se decepcionam e então encontram uma nova paixão. Em seguida,vcomeçam tudo de novo. Por que tendem a repetir esse padrão? Tentarei expor aqui, de maneira simplificada, uma das várias hipóteses plausíveis:essas pessoas, na verdade não amam o outro, mas o sentimento que o outro dedica a elas; elas amam o amor. O outro é apenas o veículo desse amor.

De todos os motivos que se tem para amar, que são muitos e complexos, esse é o mais ubíquo. Todos passamos por uma experiência de bebê na qual somos passivos, ainda incapazes de amar mas necessitando dos cuidadosde uma mãe amorosa. É o amor da mãe que amamos em primeiro lugar. Estou falando de uma experiência primitiva que marca indelevelmente o sistema nervoso da criança. O bebê não ama; ele tem necessidades que serão atendidas se for amado pela mãe. Esse amor manifestado através da proteção, dos cuidados e da ternura faz com que, posteriormente, ele se apaixone perdidamente pela mãe. Mas seu primeiro contato não é com ela e sim com o amor que ela lhe dedica. É aí que se fixa o traço selvagem do amor, traço que persevera mesmo no amor maduro.

Na paixão adulta imatura é apenas o amor incondicional do outro que é amado, não se chegando a amar o outro em si. Nos primeiros tempos de idolatria, essa situação é até possível. Com o passar do tempo, no entanto, para além do amor do outro, surge o próprio outro, com a sua individualidade peculiar e, por isso mesmo, invasiva. A ilusão do amor intransitivo então se desfaz. É hora de procurar uma nova ilusão em um novo parceiro. Um intenso sentimento de falta daquela relação inicial absoluta impele a pessoa a procurar outra paixão intransitiva a todo custo. A necessidade de recuperar o paraíso perdido é tão intensa que qualquer pessoa que minimamente estimule as fantasias de amor incondicional se torna imediatamente objeto de paixão. Não é possível nem dar um tempo para melhor conhecer o outro, saber se as personalidades são compatíveis. Basta que o desconhecido prometa amar sem restrições para a paixão
ressurgir com toda a força.

Ao fim de algumas decepções a pessoa poderá incorporar a vivência da impossibilidade de uma relação sem diferenças. A estabilidade alcançada no terceiro ou no quarto casamento, portanto, muitas vezes não se deve apenas ao encontro de alguém mais compatível, a uma escolha melhor, mas também a esse aprendizado da impossibilidade de uma relação incondicional, o que leva a uma maior aceitação das diferenças.

Há alguns antídotos contra esse irrefreável desejo de encontrar outro amor abstrato toda vez que o parceiro começa a aparecer por trás de seu amor. Um deles é o direcionamento da paixão para realizações pessoais e culturais. Podemos amar e nos sentir amados por qualquer coisa: futebol, coleção de selos, música, cavalos e, melhor, por nossa profissão. Outro antídoto é tentar romper as barreirasdo amor abstrato, do amor ao amor, e amar a pessoa que nos distingue com seu amor, o que nada mais é que atingir um amor maduro. É uma dupla conquista, pois reconhecer o outro é também se reconhecer, podendo então prescindir do amor incondicional.