Consciência sobre valor e papel das mulheres continua atrasada

Apesar das conquistas dos últimos anos, que incluem a entrada pra valer no mercado de trabalho, a mulher continua sendo encarada, independentemente da situação, apenas como mãe, sempre pronta a atender e nutrir, isenta de desejos e de necessidades. Mostrar seu ressentimento com essa realidade é um dos recursos que tem para ajudar a transformá-la.

O mundo gira, a mulher evolui em sua condição estrutural no mundo, mas, numa cultura ainda machista como a nossa, há algo que teima em não mudar: a consciência (da coletividade cultural e histórica, o que abrange os dois gêneros) relativa ao significado da mulher e do feminino, suas funções, seu âmbito de autonomia, a diversidade de seus interesses. Até quando teremos de dormir com um barulho desses?

Veja essas situações, tão frequentes: o filho liga para a mãe e lhe comunica que comprou ingressos para um espetáculo. Ela experimenta silencioso entusiasmo por algum tempo, mas logo descobre que, nessa festa, o lugar que lhe cabe é ficar com os netos. No Dia das Mães, ele chega com a esposa e as crianças para almoçar e leva um presente. Ressentida por ter tido de trabalhar num dia dedicado a ela, mas feliz em razão de curtir a companhia de seus amores, a mãe abre o pacote, esperançosa de ter sido lembrada em razão de suas necessidades ou desejos. O brilho de alegria nos seus olhos é logo substituído por outro, de um discreto lacrimejar: “Que bom, meu filho! Um novo liquidificador! Não precisava ter se incomodado!”

Parte-se do pressuposto de que o lugar da mulher é, em qualquer situação ou contexto, o da mãe. De quebra, a mesma ideologia entende que cabe a uma mulher (portanto, mãe) colocar-se a serviço das necessidades do outro, nutrir, cuidar, como se ela mesma não tivesse necessidades, desejos, não fosse uma pessoa e sim um mecanismo utilitário, isento de subjetividade, de sentimentos, de anseios. Ou, na melhor das hipóteses, pressupõe-se que a mulher deseja apenas que o desejo do outro seja acolhido e gratificado.

Se o leitor pensa que essa descrição já não é compatível com o atual estágio de nosso desenvolvimento cultural, engana-se. O que vejo ocorrer hoje nada mais é que a reedição do mesmo drama em outros palcos. Mudam os contextos, mas não muda o lugar estrutural em que a mulher é colocada e, o que é igualmente grave, não muda o lugar estrutural em que ela própria muitas vezes se coloca.

Ilustro com um fenômeno comum: a mulher conquista posições de destaque no mercado de trabalho, faz valer seu valor e, aparentemente, encontra respaldo em seu ambiente. Mas o tempo passa e ela descobre que, mesmo no trabalho, é colocada – e coloca-se – no lugar da “mãe”. Pode até ter bom salário, mas os méritos, as honras, as promoções continuam se destinando aos “heróis masculinos”, sejam eles os homens ou aquelas mulheres que, para serem vistas como possuidoras de valor e não serem postas no lugar da mãe, tiveram de abdicar de características fundamentais do feminino (nutrir, cuidar). Estas últimas podem até experimentar algum contentamento, mas também se ressentem quando se descobrem “homenzificadas”. É que o machismo não se dissolve quando a mulher vira um macho, mas sim quando ela contribui para a cura da cegueira do masculino em relação ao valor das especificidades do feminino.

A capacidade de se ressentir é o elemento psicológico que sempre vem em socorro da mulher. Um sentimento saudável e evolutivo, mas é importante que, de partida, a mulher saiba: a menos que ela o expresse, dificilmente os outros o perceberão. Isso não significa que as pessoas sejam insensíveis. Significa que há uma lacuna na consciência – de ambos os gêneros – relativa a esse assunto.