Nem só de vitórias vive o casal. É preciso superar também fracassos
Há momentos na vida em que as coisas não dão certo, o que, claro, traz sofrimento. Nessa hora os companheiros precisam se ajudar: em vez da intolerância acusatória, uma solidariedade compreensiva estimula o outro enfrentar o insucesso e aprender com os erros. Além disso, é bom lembrar a música de Los Hermanos: "Quem sempre quer a vitória, perde a glória de chorar".
Pouca gente sabe que a palavra “fracasso” significa também um estrondo provocado por algo que se parte ou desaba. Um sentido apropriado para ilustrar o baque de quem sofre um revés. Estudos feitos pelo psicólogo israelense Daniel Kahneman (74), Nobel de Economia em 2002, provaram que sofremos muito mais com as perdas do que nos alegramos com os ganhos. Perder carrega um leque de significações terríveis. Elas vão desde a profunda angústia de morte e de castração até sentimentos mais conscientes de incompetência ou de burrice desastrada, sem contar a pesada culpa por ter feito “tudo errado”. A derrota provoca um estrondo emocional na alma porque derruba a crença de que o indivíduo é infalível, de que é capaz de saber tudo. O fracasso é o real contra o qual se choca nosso desejo de invencibilidade.
No casal, a experiência da derrota de um ou de ambos os parceiros – na vida profissional, num concurso ou no esporte, por exemplo – é vivência especialmente difícil e dolorosa. Ninguém quer aparecer diante daquele que o escolheu com o fracasso estampado na testa, humilhado por reveses que podem diminuir a estima que lhe é dedicada. No fundo, todos sabem que há uma razoável cota de idealização e ilusão no amor, o que seria incompatível com ver a cara-metade espatifada no chão do malogro. Mas esse cruel sentimento – esperamos que não se converta em desumana atitude – na verdade é contraditório com a essência do amor real. Claro que ninguém aprecia viver com quem só coleciona insucessos – nesse caso, há algo patológico a ser verificado -, mas, aqui entre nós, quem algum dia não bebeu o amargor de uma derrota? É na intimidade de uma relação amorosa que se encontra o melhor cenário para acolher e consolar a dor nessa hora. E as forças para a recuperação, além de vigor diante dos novos desafios da vida que segue em frente. Afinal, somos humanos e finitos: não podemos triunfar o tempo todo.
O fracasso é um dos principais tabus modernos. As pessoas admiram e invejam os vencedores e estigmatizam os derrotados, sem parar para pensar que o vencedor de hoje pode ser o fracassado de amanhã – e vice-versa. Os casais que vivem o problema têm a oportunidade de ver sua relação de forma generosa, também como um espaço que dá lugar à recuperação. E até tirar proveito das más situações. O curioso – e até paradoxal – é que pessoas que obtiveram muito sucesso na vida com frequência mencionam o valor das derrotas. O japonês Soichiro Honda (1906-1991), magnata da indústria automobilística, costumava dizer que “o sucesso é construído de 99% de fracasso”. Mas é preciso saber extrair lições da derrota, pois, como lembrava o filósofo alemão Friederich Nietzsche (1844-1900), “aquilo que não mata, fortalece”.
A mesma paciência e esperança devem se aplicar à relação do casal: por definição, ela não pode ser vitoriosa o tempo todo. Quem disser o contrário, está blefando. Há momentos em que os parceiros não se entendem, desanimam e têm vontade de desistir diante dos impasses da convivência. O fracasso às vezes é definitivo, porém, não raro, não passa de um momento difícil que pode ser superado, caso haja amor e não se tenha uma visão idealizada e perfeita do que é um convívio. Porque, na realidade, o que ocorre nem sempre é um fracasso, mas apenas a frustração resultante de uma expectativa exagerada de sucesso.