Soçaite, do inglês society, redução de café-soçaite, surgiu para…

...designar ambiente de agradável convívio, frequentado por elites de hábitos refinados. Mas ele acabou acolhendo o novo-rico, do francês noveau riche, às vezes cafona, do italiano cafone, sem cultura.

Cafona: do italiano cafone, cafona, pessoa mal-educada, de gostos vulgares, como são em geral os novos-ricos, cujo status econômico não corresponde ao cultural. Sua origem provável é Cafo (século I a.C.), nome de um centurião romano, cuja companhia era evitada por causa de seus hábitos rudes. Na década de 1970, a TV Globo produziu uma telenovela chamada O Cafona. Com texto de Bráulio Pedroso (1931-1990) e direção de Daniel Filho (71), foi a primeira a fazer uma advertência que se tornaria proverbial – “Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas ou com fatos reais terá sido mera coincidência” -, já que integrantes da alta sociedade carioca se sentiram retratados na trama. Foi levada ao ar em preto-e-branco, de março a outubro de 1971, às 22h00. Um dos principais papéis foi confiado a Francisco Cuoco (75), que contracenava com Paulo Gracindo (1911-1995), Tônia Carrero (86), Renata Sorrah (61) e Marília Pêra (65), entre outros. Havia também um núcleo cômico, vivido pelos hippies Carlos Vereza (69), Ary Fontoura (75) e Osmar Prado (61). Djenane Machado (61), filha do célebre homem da noite Carlos Machado (1908-1992), vivia o papel de Lúcia Esparadrapo, possivelmente o melhor de sua carreira na televisão. O enredo gira em torno de Gilberto Athayde, um viúvo rude e inculto, mas empresário competente, que transforma uma venda de subúrbio em uma cadeia de supermercados. Continua com seus hábitos simples de homem do povo. A grã-finagem, mobilizada pelo dinheiro dele, quer a sua amizade. Foi também a primeira telenovela a ter músicas compostas para a trilha sonora, que ensejou dois discos, O Cafona e O Cafona Internacional, outra prática que se consolidaria no gênero.

Fuzarca: de origem controversa, talvez derivada de fuzo, do quicongo mvunzu, confusão. Designa bagunça, desordem, mas com o sentido de farra, festa. É do mesmo étimo de fuzuê. Deve ter nascido por metáfora de africanos contemplando as águas fluviais revoltas, pois no Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes (66), diz-se que fusu nomeia originalmente turbilhão nas águas de um rio. O dicionário Aurélio liga a palavra a confuso e estranha não ser escrita com “s”. O jornalista Ivan Lessa (73) era um dos editores de O Pasquim, autor de uma das seções mais criativas, Gip-Gip-Nheco-Nheco, mas já trabalhava na BBC, em Londres, quando reuniu algumas de suas deliciosas narrativas curtas em Garotos da Fuzarca , onde se lê a seguinte conversa, ocorrida num mictório: “Veja você, me diz ele, há dez anos atrás eu rachava ao meio pedra de gelo com o jato do mijo, hoje não empurro nem bola de naftalina”

Novo-rico: do francês noveau riche, novo rico, designando integrante da elite econômica ou financeira que enriqueceu rapidamente, não por herança de berço e seus desdobramentos, mas por trabalho e iniciativas empresariais de sucesso, às vezes fruto de oportunidades para cujo aproveitamento foi dispensada a ética. Sua falta de educação, de bom gosto ou de simples instrução destoa da daqueles com os quais passa a conviver, por força dos negócios. O francês, além de noveau riche, tem a palavra parvenu, de parvenir, do latim pervenire, chegar, atingir. Quando um senex, homem velho, apresentava perfil de pessoa capaz e interessada na res publica, a coisa pública, a república, tornava-se senator, senador, os antigos romanos diziam que era hora de ele pervenire in senatum, entrar para o senado. Mas o francês parvenu designa o arrivista, como se torna o membro da elite política, que às vezes só tem o mérito de ser conhecido do público.

Pimba: de origem controversa, talvez alteração de bimba, do quimbundo mbimba, cacete, cajado. Há registros de que nas línguas bantas designe também batida do coração e o próprio órgão. Nesse caso, o vocábulo tornou-se expressivo de ocorrências súbitas, emocionantes ou assustadoras, como no célebre bordão criado pelo radialista Osmar Santos (59): “Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha”. Ripa é sarrafo, chulipa é dormente de ferrovia, pimba é chute e gorduchinha é a bola. O Aurélio abona o vocábulo assim: “O automóvel derrapou e – pimba! – bateu no poste”.

Soçaite: do inglês society, sociedade. É forma reduzida da expressão café-soçaite, surgida no país nos anos 1930 para designar as elites que se reuniam nos cafés, então os locais preferidos para o convívio social. Tornou-se variante da expressão francesa grand monde, alta sociedade. Mas nos anos 1970 já se tornara de mau gosto a sua invocação.