Decisão de não ter filhos precisa ser discutida e pode ser revista
A família moderna já não inclui necessariamente uma prole, mas a decisão de não procriar nem sempre é devidamente conversada entre os parceiros. E, mesmo quando é, há a chance de um dos dois mudar de ideia. Nesse caso, o assunto pode muito bem ser retomado. Se o jogo for aberto, sem cobranças ou acusações, nada impede que a decisão seja reavaliada.
Foi-se o tempo em que o casamento tinha função procriativa praticamente certa. Hoje, é cada vez maior o número de casais que resolvem não ter filhos. O problema é que nem sempre existe concordância entre os dois sobre o desejo de deixar descendentes, o que gera brigas e questionamentos sobre o relacionamento.
Às vezes, os ciclos de vida não coincidem. É o caso do homem mais velho que já teve a sua prole em outro ou outros casamentos e a esposa jovem, com o instinto maternal desabrochando, ou da mulher em ascendência profissional cujo marido não quer mais adiar a ideia de ser pai.
A discussão pré-nupcial sobre a questão de ter filhos ou não raramente ocorre, por diferentes razões, como medo de provocar o fim do noivado, a esperança de mudar a opinião do parceiro após o casamento ou a descrença na possibilidade de o futuro companheiro ou companheira não querer procriar. De fato, décadas atrás, quem não queria filhos era considerado esquisito ou infeliz. Quando a esterilidade rondava o casal, a chance de a mulher ser responsabilizada era enorme, pois o homem temia a associação equivocada entre fertilidade e virilidade. A hipótese de não poder engravidar assombrava recém-casadas. Esse padrão foi mudando a partir do surgimento da pílula anticoncepcional, nos anos 1960. A mulher passou a programar o exercício da maternidade e, com os avanços da Medicina, ganhou mais possibilidades de engravidar, até em faixas etárias avançadas.
E hoje? Filhos são imprescindíveis para um casamento feliz? Novas composições familiares mostram que não. Indicadores sociais apontam que, nos últimos dez anos, praticamente dobrou o número de casais sem filhos em que ambos os cônjuges possuem renda. São os chamados dinks, sigla da expressão em inglês “double income, no kids”, ou seja, “dupla renda, sem crianças”. Muitos decidem mesmo não deixar herdeiros, optam por investir na carreira e nas realizações individuais e em dupla e se dizem tão felizes quanto casais que desejaram e tiveram filhos.
A insatisfação surge quando o instinto natural de ter descendentes de um conflita com a insistência do outro no lema “fecundidade zero”. Nesses casos, quem quer filhos se vê em uma encruzilhada: continuar casado ou ser progenitor? Os caminhos parecem mutuamente exclusivos, mas não é bem assim. Opinião firme nem sempre é sentença definitiva. Quem não conhece aquele homem que não queria filhos e depois virou um “pai-babão”? Se o anseio pela maternidade ou pela paternidade impera e o amor ao parceiro é grande, vale insistir em expor opiniões. Principalmente para as mulheres, porque têm prazo de fertilidade. Questões do tipo “Como vou ter filho com alguém que rejeita essa ideia?” não devem impedir tentativas de persuasão, desde que sejam transparentes e éticas. A crença de que a aceitação deve estar presente desde o princípio é equívoco a ser corrigido.
Mas, qualquer que seja a decisão, pense que a escolha foi sua. Quem renuncia à prole não deverá, no futuro, responsabilizar o parceiro pelo sonho não realizado. Já aquele que aceitou aumentar a família deve suprimir de seu discurso a frase “Estou tendo um filho por você”. Quem muda de ideia e resolve partir para uma gravidez, ainda que a princípio seja para agradar ou por medo de perder o parceiro, revela que o desejo de gerar um filho também passou a ser seu.