Novo filme de Woody Allen é um espelho da insatisfação amorosa
Os encontros e desencontros afetivos dos personagens de Vicky Cristina Barcelona refletem a impossibilidade da relação ideal. Não adianta sair por aí procurando o par romântico, que proporcione plena satisfação. Certa incompletude faz parte do amor e estará sempre presente nos relacionamentos. Amar de verdade significa também perdoar as imperfeições do outro.
Nada melhor do que a arte para desvendar uma realidade nem sempre visível a olho nu. É o que acontece com o novo filme de Woody Allen (73), Vicky Cristina Barcelona. A certa altura, a personagem Maria Elena, interpretada por Penélope Cruz (34), diz uma frase que nos faz pensar não só nos desencontros afetivos que vemos na tela, mas também na insatisfação que tão freqüentemente constatamos na vida real. “Os relacionamentos não realizados são sempre os mais românticos”, decreta Maria Elena. Será? Se invertermos sua fala, poderemos concluir que os relacionamentos concretizados são sempre os menos românticos, ou nunca são os mais românticos. Seria justo afirmar que as relações estáveis são sempre monótonas e desprovidas de glamour?
A verdade é que aprisionar a complexa experiência dos relacionamentos em apenas dois pólos – idealização romântica ou realidade sem graça – não é fazer justiça à sua imprevisível e notória diversidade. As pessoas em geral não são apenas racionais, elas convivem com desejos e anseios não satisfeitos. Vivem sonhando com amores fantásticos, não raro como substitutos ou complementos de sua vida, que sentem estar aquém do que almejam ou merecem. Às vezes, tais sonhos são o prelúdio de uma vida melhor, o impulso para encontros mais calorosos e criativos. Mas o paradoxo também ocorre: a ânsia por um amor que fuja das limitações inerentes à vida do casal, ou da solidão, pode não conduzir para além de tentativas malsucedidas, que se repetem com a mesma monotonia de uma relação estável. Nesse caso, a idealização romântica é uma fantasia, quase delírio, que dá certo por tempo limitado, enquanto se tenta compensar frustrações. Funciona como um substituto temporário para a realidade e não como uma tentativa de mudá-la. Essa idealização romântica é muito exercida por quem não consegue suportar o sentimento de que, em toda relação, sempre haverá a falta de algo a preencher e um difuso senso de insatisfação. É preciso saber que isso não é um fracasso afetivo, ou fruto de escolha errada, mas algo inerente ao amor. É claro que essa incompletude natural do amor não pode servir de justificativa para se manter relações que não estejam dando certo. Mas também não se pode ir acreditando em qualquer promessa repentina de amor perfeito e pleno de originalidade. É ilusão. É bom lembrar que, embora haja “robôs-zumbis de fabricação em série”, como se diz no filme, frutos da massificação cultural e da pasteurização dos costumes, a originalidade de cada ser humano pode ser redescoberta na situação amorosa.
A alternativa para as limitações e insatisfações do amor possível não é o eterno romantizar do encontro ilusório, mas a descoberta legítima de alguém de quem se gosta: o sentimento de intimidade e quietude afetiva – e de generosidade. Sim, há que se perdoar o outro por ele não ser perfeito, completo, ideal, e ter as dificuldades que todos nós temos, cada um à sua maneira. E isso é recíproco. Afinal, se o outro está conosco, é porque também nos ama e suporta nossas limitações. Não se trata de favor ou caridade, sequer de boa vontade: o amor requer desejo, verdade e ética. Trata-se da vontade de ficar junto, do prazer recíproco, sexual e espiritual, da companhia que cria e recria o glamour cotidiano, que nasce e se renova na repetição. Mas de forma nunca ideal, fantástica ou livre da sombra – perdoada – da insatisfação.