O cabelo pixaim, do tupi apixaim, está em alta no mundo com a eleição…

...do senador Barack Obama nos Estados Unidos. Mas a negritude, do latim nigritudo, não foi a principal razão para o povo americano apoiar, do italiano appoggiare, a sua eleição.

Apoiar: do italiano appoggiare, apoiar, sustentar, radicado no latim appodiare, pôr coisa ou pessoa no podium, pódio, utilizando a pedra como base. Apoiar, primeiramente no sentido denotativo e depois no conotativo, passou a metáfora. Foi com uma canção que o casal John Winston Lennon (1940-1980) e Yoko Ono (75) apoiou a professora universitária Angela Yvonne Davis (64), aluna brilhante da Brandeis University of Massachusetts, onde se graduou em Filosofia com a nota máxima. Ela foi aprimorar os estudos na França e depois na Alemanha, mas voltou à pátria em 1970. Acabou sendo presa pelo FBI e permaneceu no cárcere por cerca de 40 meses. Alguns versos cantados por John e Yoko diziam: “Angela, they put you in prison,/ Angela, they shot down your man./ Angela, you’re one of the millions,/ Of political prisoners in the world” (Angela, eles a puseram na prisão,/ Angela, eles mataram seu homem,/ Angela, você é uma entre milhões,/ De prisioneiros políticos no mundo). Em 1980, ela concorreu à vice-presidência dos Estados Unidos. Na conhecida canção de protesto, outros versos anteviam as mudanças depois ocorridas: “Angela, can you hear the world is turning,/ Angela, the world watches you./ Angela, you soon will be returning,/ To your sisters and your brothers of the world” (Angela, você pode ouvir o mundo mudando,/ Angela, o mundo está de olho em você,/ Angela, em breve você retornará para suas irmãs e seus irmãos do mundo).

Negritude: de uma destas duas palavras latinas: nigro, negro, ou nigritudo, negritude. Mas como conceito global dos valores culturais das raças negras é termo desenvolvido e consolidado pelo escritor Leopold Sédar Senghor (1906-2001), que foi deputado da Assembléia Nacional Francesa, líder do Bloco Democrático Senegalês e presidente do Senegal, desde a independência, em 1960, até 1980, quando voluntariamente deixou o poder. Nos anos de 1960 e 1970, a negritude teve em suas vertentes o movimento Black Power (Poder Negro), surgido nos Estados Unidos.

Pixaim: do tupi apixaim, pixaim, designando o tipo de cabelo próprio dos negros. O poeta paulista Cassiano Ricardo Leite (1895-1974), imortal da Academia Brasileira de Letras, usa a palavra pixaim no poema Noite na Terra: “Cabelo assim, pixaim./ Falando em mandinga e candonga./ Desceram de dois em dois./ Pituna é bem preta: pois cada preto daqueles/ era mais preto que Pituna./ Asa de corvo ou graúna/ Não era mais preta/ cruz-credo, figa-rabudo,/ Do que a prata mina/ Que chegou no Navio Negreiro/ Carvão destinado à oficina das raças”.

Temperar: do latim temperare, temperar, misturar substâncias diversas para combinar determinado estado, como é feito com os metais. Tem também o significado de modular a música, como na expressão “cravo bem temperado”. Com o sentido de afinar, lemos em Marafa, de Marques Rebelo (1907-1973), pseudônimo de Eddy Dias da Cruz: “Passava os dias dormindo, jogando cartas, temperando o violão”. E significando ajuntar, aparece neste trecho de O Embaixador, de Erico Veríssimo (1905-1975): “O companheiro encarregado de saudá-lo temperou em sua oração biografia com humor”. “Cortinas escuras temperavam a luz, quebrando a violência do sol”, diz Henrique Maximiano Coelho Neto (1864- 1934), em Turbilhão, em que as cortinas diminuem a claridade. Nos exemplos citados vê-se que os verbos misturar, regular e ordenar são sinônimos de temperar. Na culinária, temperar é alterar o sabor original pela introdução de novas substâncias, a mais óbvia das quais é o sal. As navegações que levaram à descoberta da América tiveram originalmente o projeto de buscar temperos do Oriente por novos caminhos. E os primeiros negócios foram temperos: pimenta, cravo, canela. Daí o significativo do título do romance de Jorge Amado de Faria (1912-2001), Gabriela Cravo e Canela, tomando os dois temperos em sentido conotativo para referir uma mulher de proporções harmoniosas, na forma como no temperamento, palavra que veio do latim temperamentum, designando o conjunto de características psicológicas da pessoa, que se manifestam em seu comportamento. Expressões anônimas consolidaram-se na língua portuguesa dando conta de que se pode e se deve “temperar a vida”, acrescentando-lhe o que lhe falta. A sabedoria popular recomenda “temperar a língua alheia com a orelha própria”, isto é, pôr a mistura de sua calma na irritação dos outros.