Quem se conhece tem mais chance de viver relacionamentos plenos

O amor não é suficiente para tornar uma união “sustentável”. Além dele, é preciso que haja entrega dos parceiros. O problema é que para uma pessoa se entregar ela precisa se conhecer. Quem não se conhece não tem como se deixar conhecer pelo outro. Já quem tem consciência de suas emoções e fantasias consegue separar o que é seu do que é do parceiro e entregar-se de fato.

Está na moda a palavra sustentabilidade. Vamos aplicá-la, então, nas relações. Para começar, pergunto: o que afinal torna uma relação “sustentável”? Se você respondeu que é o amor, errou. A entrega é que cumpre esse papel. Por mais amorosos que os parceiros sejam, se não houver entrega, a união será superficial e seu “prazo de validade” vencerá logo. Entrega, vale lembrar, é a atitude de “dar-se a conhecer”.

Mas, como só se pode dar o que se tem, para se entregar a pessoa precisa antes conhecer-se. Quanto mais alguém se conhece, tanto mais saberá distinguir o que é seu do que é do outro e tanto mais poderá entregar-se. Nos tempos atuais, no entanto, hábitos como introspecção e reflexão caíram em desuso. Internet, celular, televisão a cabo, tudo nos distancia de nós mesmos.

A maioria das pessoas é pouco íntima dos próprios pensamentos, emoções, atitudes e mecanismos de defesa. Por isso, confunde emoções, incomoda-se com dilemas, lida mal com conflitos e não sabe entregar-se. Para entender como isso interfere na relação, imagine que uma moça diz ao namorado: “Estou insegura, pois não sei o que represento em sua vida. Às vezes acho que você gosta de mim, outras, que não. Nessas horas fico magoada e infeliz. Se tento não pensar no assunto, me culpo, pois acho que me acomodo. Gostaria de não ser assim, procuro mudar, mas estou com dificuldades. O que a gente poderia fazer a respeito? Você pode me ajudar?”

Repare que ela está dizendo coisas que ele não teria condições de saber se ela não expusesse. Assume a insegurança e não o culpa pelo que sente. Deixa claro que gostaria de sentir-se mais segura, reconhece que sua dificuldade prejudica a relação e pede ajuda. Em outras palavras, entrega-se, faz um investimento afetivo. Se o namorado for sensível, mas não sentir por ela afeto bastante para entregar-se mais, ambos reconhecerão que têmm expectativas diferentes.

Nesse caso, a relação pode terminar ou continuar – se o casal encontrar sentido em ficar junto apesar das diferenças. Mas se ele desejar envolver-se mais, e não souber se entregar, a situação poderá ficar dramática. Sendo sensível, ele reconhecerá como legítima a expectativa da namorada e entenderá o pedido dela como evidência de seu afeto por ele.

Pode ser até que fique desconcertado com a facilidade com que ela se entrega, uma vez que desejaria fazer igual. Porém, não consegue, não sabe o que entregar de si, pois não se conhece. Fica no conflito entre o desejo de entrega e a incapacidade de fazê-lo. A convivência torna-se dolorosa, porque é no convívio com o outro que a pessoa constata sua incapacidade de entrega.

Então vem a culpa. A saída é evitar o convívio, o que gera outro conflito: ele quer estar perto, pois gosta, e longe, pois proximidade o faz sofrer. Seu distanciamento desencadeia mais sofrimento nela, porque confirma a suspeita de que ele não a ama o bastante. A frustração de ambos e a incapacidade de entender essa dinâmica inviabilizam a relação, mesmo que haja amor – ela não se sustenta.

O fim poderia ser evitado se ele fizesse como ela: buscasse entender seus medos e fantasias, reconhecendo-os e compartilhando-os. A entrega de ambos daria consistência ao relacionamento e juntos eles teriam mais chances de vencer suas inseguranças.