Com a crise das bolsas, convém notar se o parceiro não se viciou

Cuidar vem do latim cogitare, pensar. Algo importante para a união, quando se estranha alguma coisa. A dedicação excessiva às aplicações financeiras, por exemplo, que hoje podem ser feitas até de casa, via Internet. Quando ele ou ela fica absorvido demais, prejudicando o equilíbrio e o amor do casal, é possível que já tenha ultrapassado a fronteira que leva ao vício do jogo.

Uma das vantagens da relação a dois é que os parceiros têm a chance de se estimular também na troca de idéias e impressões acerca de um e de outro. Com isso, crescem na diferença e conseguem moderar vícios e aparar problemas. Quando um percebe que o outro anda em caminho arriscado, prejudicial para si e o casal, convém tocar no assunto, claro que com jeito, de forma a não melindrar.

Mas nem sempre há condições de mudar. Quando se é acometido, por exemplo, pelo vício, é mais delicado. Vício é um sintoma de angústias mais complexas. Curioso quando vem mascarado por tarefas objetivas. Por exemplo: ao sugerir leituras para entender a crise financeira norte-americana, Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, incluiu, entre livros especializados, o romance O Jogador, do russo Dostoievski. A mensagem parece ter sido clara: as aplicações econômicas não são ditadas só por investimentos racionais e podem ser infiltradas por obscuros desejos psicológicos. Entre eles, o vício do jogo, a ambição desmedida ou o impulso para se autodestruir. Dostoievski diz no livro: “Aliás, os jogadores sabem muito bem como é possível ficar cerca de vinte e quatro horas com as cartas na mão, sem sequer virar o rosto para os lados”. Já imaginaram se isso ocorre com freqüência com um dos parceiros, interferindo na união?

Quando ele ou ela são viciados no jogo, o casal tem consciência de que o problema existe, sofre, embora raramente alcance as causas por que ele ou ela – ou ambos! – têm a compulsão. Às vezes, é preciso procurar um psicanalista, que – a bem da verdade – vai custar menos do que as perdas causadas pelo vício, sem contar os benefícios emocionais. O problema é que esse hábito prejudicial muitas vezes se oculta por trás de atividades aparentemente “nobres”: os investimentos financeiros, em especial os mercados de risco, como a Bolsa de Valores. Com o progresso tecnológico, é possível investir sem sair de casa, por computador e Internet – aliás, por si só, também capazes de causar dependência. Bolsa de Valores, computador e Internet, não é tudo de que um viciado em jogo precisa?

Claro que a facilidade pode ser usada de forma produtiva e benigna. Hoje, muitos trabalham em casa, investindo recursos de forma racional e prudente pela Internet, amparados por sólida e consistente gestão de risco. É tarefa estimulante, podendo se tornar objeto de conversa e assunto criativo entre os parceiros. E, com sorte, talento e prudência, até se tornar lucrativa a longo prazo. O carteado, o bingo, o cassino, de outro lado, são atividades lúdicas e prazerosas, motivo de entretenimento do casal. Lógico, desde que a sanidade e a razão guiem a maior parte de tais ações, a fim de que se mantenham positivas e livres da infiltração de pressões compulsivas que as distorcem e as pervertem.

Mas o risco é de se ficar cego quando, por exemplo, a Bolsa de Valores se converte em vício, fuga da realidade, deixando que a vida se resuma à volatilidade dos investimentos. Nesse jogo pelo amor ao jogo, quem sai perdendo, além do bolso, é o amor do casal. Não se percebe a perigosa infiltração de impulsos de autodestruição: em casos extremos, há quem não descanse até perder tudo, caindo na armadilha que o vício proporciona para a autopunição. Isso ocorre porque há terrível submissão a sentimento de culpa de origem misteriosa, um desejo sinistro de chegar ao fundo do poço. Perceber isso no outro, e agir a tempo, pode evitar o pior.