Etimologia
O mundo foi pego de surpresa no último dia 10, quando a Igreja Católica anunciou que o papa Bento XVI iria abdicar, do Latim abdicare, deixar o trono de São Pedro, em Roma. Gregório XII tinha sido o último papa a renunciar, do Latim renuntiare, em 1415.

Abdicar: do Latim abdicare, recusar, deixar, cujo étimo está também em dicere e dicare, dizer, radicadas na raiz deik-/dik, presentes ainda no Osco e no Úmbrio, línguas que precederam o Latim na Itália. Ainda há diversas monarquias no mundo, regime em que a sucessão só se dá por morte do soberano, que é sucedido por gente da própria família que esteja na linha de sucessão. Entretanto, o Vaticano é governado por uma monarquia sui generis, na qual o sucessor é eleito por maioria de votos no colégio de cardeais, atualmente com 120 eleitores. Serão eles que vão escolher o novo papa, pois Bento XVI (85) anunciou que vai renunciar. A jornalista italiana Giovanna Chirri foi quem primeiro anunciou que o papa avisara aos cardeais que iria abdicar no dia 28 de fevereiro, às 20h00. Outros jornalistas estavam no recinto quando o papa falou, mas ela era a única ali presente que sabia Latim. “Publiquei a notícia e comecei a chorar”, disse.
Cambada: de origem controversa, talvez de referência pejorativa a vagabundos, comparandoos aos índios camba, que habitavam a periferia de Corumbá (MS), e aos olhos dos colonizadores não queriam trabalhar. No quimbundo, kamba é camarada e designa também o chefe de terreiro. Aqueles que estavam com ele eram denominados difusamente por cambada. Camba designa ainda um dialeto africano falado pelos quicuios, o grupo mais populoso do Quênia. Cambada é também o conjunto de vários objetos amarrados ou enfiados em alguma corda, barbante ou fio.
Drone: do Inglês drone, zumbido, variante do Inglês antigo drane, cujo étimo remonta ao Grego antigo thrênos, lamento; ao Gótico drunjus, som. No Inglês, drone surgiu primeiramente na poesia. Hoje designa sobretudo um tipo de avião não tripulado, de largo uso nas guerras pelos Estados Unidos em bombardeios no Afeganistão e no Iraque.
Gorgonzola: do Italiano gorgonzòla, queijo que recebeu o nome da cidade homônima da Lombardia, onde começou a ser fabricado. Os pigmentos azulados provêm do mofo resultante da infusão do fungo Penicillium, seu nome em Latim, que, aliás, está na origem da penicilina, o Inglês penicillin, adaptado do Latim. A cidade de Gorgonzòla, nos arredores de Milão, ganhou este nome em 1875 e chamou-se originalmente Concordiola, terras pertencentes a um certo Concordius ou pessoa cordata. À semelhança do queijo roquefort, surgido em Roquefort-sur-Soulzon, no Sul da França, tem um aroma forte. Outro queijo famoso é o brie, que tomou o nome de um distrito francês. Deste último debochou assim o biólogo francês Jean Rostand (1894-1977): “O queijo que tem os cheiros dos pés de Deus.” L'odeur des pieds, no Brasil, é chulé, uma ignonímia para iaguaria tão saborosa.
Pontinha: de ponta, do Latim puncta, designando papel secundário, com poucas aparições, no teatro, no cinema, na televisão. Mas de início indicava alguma coisa que feria, como uma obsessão ou birra, passando depois a outros significados, como uma pontinha de inveja. Finalmente, veio a designar coisa de boa qualidade, indicada com a expressão “é da pontinha”, acompanhada de pressão no lóbulo da orelha com o polegar. A expressão surgiu na França para indicar o bom vinho. Solicitava-se ao ouvinte que prestasse atenção, pois aquela era uma bebida de qualidade: “Vin d’une oreille, bon vin”, variante de erguer o polegar, tornando-se vulgar este último gesto, não o de apertar a orelha.
Renúncia: do Latim renuntiare, anunciar em resposta, derivou esta palavra, que é do mesmo étimo de nuntiare, proclamar, anunciar; de nuntius, mensageiro; de enuntiatum, enunciado; de praenuntium, prenúncio; de annuntium, anúncio; e de pronuntia, pronúncia, entre outras. No último dia 10, o papa entregou aos cardeais uma declaração em que informava a canonização de três santos e a renúncia ao trono de São Pedro (século I). A notícia foi manchete no mundo inteiro, afinal apenas seis papas tinham renunciado até então: Clemente I, em 88; Ponciano (175- ?), em 235; Silvério (500-?), em 537; João XVIII (960-?), em 1009; Celestino V (1215-1296) e Gregório XII (1327-?), em 1415. Dante Alighieri (1265-1321), no Canto III da Divina Comédia, põe o papa Celestino no Inferno por ele ter renunciado: “Logrei a uns poucos identificar;/ e a alma reconheci, que no alto estando/ se viu a grã renúncia praticar.”