Fixação em pornografia não deixa que a vida afetiva se desenvolva
Cada vez mais pessoas dependem da pornografia para se animar sexualmente. É como se elas precisassem do sexo dos outros para se excitar. Na verdade, quase todo casal, por curiosidade, uma vez ou outra experimenta algo pornô. Mas muitos se assustam quando seu par só quer saber de ver cenas sexuais alheias, em vez de se interessar pela intimidade do próprio casal.

Com tantas ofertas sedutoras hoje, poucos casais deixam de ser fisgados em aventuras ligadas à pornografia. Muitos o fazem só como brincadeira; outros por curiosidade ou para debochar. Mas há pares em que o uso é freqüente, chegando ao extremo de serem incapazes de manter intimidade se não houver auxílio disso. Se os dois apreciam – questão de gosto à parte -, não chega a ser problema. Mas, não raro, ele ou ela se chocam ao ver que o outro prefere ficar se excitando com pornografia, em vez de desfrutar o amor “ao vivo” entre eles.
Não precisamos adotar falsos dilemas que inundam o pensamento e nos pressionam a escolher uma coisa ou outra. Por exemplo: se não gostamos da pornografia, seríamos moralistas; ou se gostamos seríamos indecentes. Tudo isso é mais complexo. Origina-se das fantasias infantis de todos nós e da capacidade ou não de tolerar os limites naturais e intransponíveis da satisfação do desejo. E se temos condições de nos relacionar de forma emocionalmente íntima com outra pessoa, não só com o seu corpo ou partes dele. Nem todo mundo atinge esse grau de crescimento. Captando os defeitos da espécie, Karl Kraus, um espirituoso escritor vienense, afirmou: “A relação sexual é uma substituta insatisfatória da masturbação”. Sigmund Freud comentou que esta “cínica observação” de Kraus confirmava seus achados, de que nas imaginações sexuais das pessoas os parceiros são tão fantásticos que não podem ser encontrados na realidade.
Mas vão ser caçados na imaginação e na fantasia! Ou seja, se os coloridos personagens dos delírios sexuais não vivem no preto-ebranco da vida, as excitações provocadas pelos produtos pornográficos aproximam o indivíduo deste mundo de supostos prazeres ilimitados que apenas a imaginação poderia propiciar. Mas isso ocorre com o prejuízo do desfrute de outras dimensões que existe entre as pessoas e da qual o viciado em pornografia se sente excluído. Afinal, de forma menos direta e grosseira, são causadoras de fortes estímulos sexuais as instigantes conversas ou programas descontraídos que revelam detalhes da maneira de ser, do rosto e do corpo do outro; cada pessoa pode ser um personagem erótico por si mesma. Enfim, várias são as situações humanas propícias a expressar a intimidade e a estimular o apetite amoroso. Mas a dependência estrita da pornografia indica achatamento afetivo e mental. Não há subjetividade, só corpos e órgãos. Há fixação nas imagens sexuais infantis proibidas. Independente da idade, é na posição de atrevidas crianças voyeurs que o olhar lascivo, e sob alucinação, se excita com a sexualidade dos adultos.
Na cultura atual, a tendência ganha reforço, pois há influência das imagens: a mídia nos atinge num verdadeiro tsunami de megaondas comunicacionais que arrastam e apagam a diferença entre o virtual e o real. Isso induz ao uso da pornografia e o costume de ver a sexualidade como algo que só pode surgir inicialmente das imagens do “buraco da fechadura”, da visão da cena sexual alheia, do espelho erótico da mídia. Surgem novas figuras de identificação e o homem tenta imitar personagens pornôs e exige da mulher atitudes dos filmes eróticos, como se o casal não tivesse liberdade para inventar a própria sexualidade e não fosse a fonte dela. A pornografia deixa, então, de ser transgressão para se converter em submissão.