Relação amorosa é campo fértil para o aparecimento de complexos

Nos namoros e casamentos reproduzimos a relação que tivemos com nossos pais ou parceiros anteriores, trazendo à tona traumas de outras épocas. Por isso, filhos de mães dominadoras esperam o mesmo comportamento das companheiras. E mulheres que foram traídas desconfiam de todos os homens. Para livrar-se desses complexos é preciso descobrir como se formaram.

Hoje, todo mundo fala em complexo: de inferioridade, de Édipo, materno e outros. O termo, criado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), incorporou-se à linguagem popular. O que poucos entendem é por que nas relações amorosas tantos complexos teimam em aparecer.

Antes de mais nada, é preciso compreender o que Jung quis dizer com a expressão. Ele a cunhou quando, num teste, percebeu que certos atos ou palavras provocavam reações exageradas em algumas pessoas, reações que revelavam emoções ocultas. Tal sistema de associação de idéias e sentimentos, acreditava Jung, era autônomo, tinha força própria, levando as pessoas tomadas por ele a reagir de maneira fortemente emocional, mesmo quando não havia razão aparente para tal. Por esse motivo, o psiquiatra dizia que nós não temos os complexos, eles é que nos têm.

Criados muitas vezes a partir de conflitos da infância, mas também de outras fases da vida, os complexos não são sempre negativos e podem ter boa influência sobre o nosso desenvolvimento. Quando, na infância, recebemos carinho, atenção e proteção, e acreditamos ser bonitos, importantes, capazes, perfeitamente habilitados a ter sucesso na vida, isso acaba nos levando, efetivamente, a boas realizações. Se a experiência infantil não foi positiva, porém, podemos nos sentir rejeitados e, com isso, prejudicaremos nossa carreira e também nossos relacionamentos.

O fato é que na parceria amorosa muitas vezes repetimos a relação afetiva que tivemos com nossos pais. Vamos nos sentir amados ou rejeitados da mesma maneira como fomos na infância. Uma atitude de nosso parceiro pode estimular o surgimento de emoções fortes, incontroláveis, e que, no entanto, não terão nada a ver com a situação presente, estando mais ligadas a acontecimentos do passado.

Um exemplo é o do homem que teve uma mãe dominadora, que fazia com que ele se sentisse fraco, medroso. Tomado pelo complexo materno negativo, quando for se relacionar com uma mulher ele esperará que ela seja controladora e forte como sua mãe. E terá medo das mulheres, em geral, por achar que elas sempre querem controlá-lo, castrá-lo, dominá-lo. Isso dificultará seus relacionamentos.
Também acontece de complexos se formarem mais tarde, em decorrência de traumas ou de fortes emoções vividas nos relacionamentos. Pessoas que foram traídas, por exemplo, estão sujeitas a desenvolver complexo negativo em relação aos novos parceiros, sempre esperando que eles as traiam. Um ciúme ou um medo patológicos se desenvolverão, podendo prejudicar ou até impedir os novos relacionamentos. O outro já virá com uma carga negativa, conferida pelo complexo. Mesmo que seja confiável, não merecerá confiança, o que impedirá o relacionamento de prosseguir, aumentando a convicção de que “não se pode mesmo confiar em homem” ou “em mulher”, dependendo do caso, palavras típicas de quem está sob o domínio de um complexo.

É realmente um transtorno, mas possível de ser enfrentado. Para isso, em primeiro lugar, é necessário admitir que existe o complexo, tentar trazê-lo para a consciência. Trata-se de um processo nem sempre simples e que pode exigir a ajuda de psicoterapia. Uma vez que alcance esse objetivo, o homem finalmente vai deixar de ver a mãe controladora em todas as mulheres e a mulher parará de identificar todos os homens que lhe aparecem na frente com aquele ex traidor. Somente entendendo o onde está a raiz dos traumas será possível libertar as novas relações de suas armadilhas.