Tamara Paz reflete sobre dor, escuta e saúde da mulher
Da formação cirúrgica ao consultório, a médica reflete sobre dor feminina, sexualidade, menopausa e o tempo necessário para ouvir cada mulher.

Há áreas da medicina em que o diagnóstico começa antes do exame, no modo como a paciente entra, senta e tenta explicar o que sente. Na ginecologia de Tamara Paz, esse instante tem peso clínico e também humano. Entre consultório, cirurgia e acompanhamento ao longo de diferentes fases da vida da mulher, a médica foi construindo uma prática em que técnica e escuta caminham juntas.
Origens e formação
Carioca e sem médicos na família, Tamara diz que a escolha pela medicina nunca foi uma dúvida real. “Eu sempre quis ser médica. Nunca pensei em outra profissão. Foi um caminho muito natural para mim.” A ginecologia, porém, surgiu já durante a graduação. Antes disso, imaginava seguir por outra especialidade. “Eu achei que seria gastro, na verdade. Mas, quando fiz ginecologia na faculdade, fiquei absolutamente encantada.”
Também já havia um desejo antigo por uma área cirúrgica. “No fundo, eu sempre soube que queria fazer alguma coisa cirúrgica, alguma coisa com videocirurgia.”
Antes, achava que faria endoscopia digestiva, e acabou fazendo endoscopia ginecológica. Foi assim que histeroscopia e laparoscopia passaram a ocupar um lugar central em sua formação e, depois, em sua rotina.
A virada profissional e o amadurecimento da prática
A obstetrícia teve um papel importante no início, com plantões, maternidades e partos. Hoje, ela ainda acompanha gestações de pacientes com quem construiu vínculo ao longo dos anos. “Quando a paciente já vem comigo há mais tempo, eu acompanho esse processo de perto. Já conheço a história, a família, e isso torna o cuidado ainda mais próximo.”
Com o tempo, a prática foi ficando ainda mais atravessada pela própria experiência de vida. “Lidar com o universo feminino é uma coisa que, no início, não foi o que mais me chamou atenção. Mas, depois de ser mãe, isso mudou muito para mim.” Para ela, o ginecologista acompanha a mulher em fases muito diferentes, da adolescência à menopausa, passando por dor, contracepção, desejo de engravidar, libido e mudanças do corpo. “As minhas pacientes mudaram ao longo dos anos, e eu também mudei com elas.”
“O ginecologista acaba sendo, muitas vezes, o médico geral da mulher. Ao longo do tempo, eu acompanho fases muito diferentes da vida das pacientes, e isso cria uma troca muito profunda. Elas chegam por uma queixa específica, mas a consulta quase sempre alcança outras camadas da vida.”
O que faz na prática e como funciona a atuação
Na rotina atual, Tamara transita entre consultório, cirurgia ginecológica, histeroscopia, laparoscopia e o acompanhamento de queixas que muitas vezes chegam silenciosas. Ao explicar a histeroscopia, recorre a uma imagem simples. “É como se fosse uma endoscopia ginecológica que vê o útero.” O procedimento permite investigar e tratar alterações como pólipos, miomas uterinos e outras doenças da cavidade uterina.
Já a laparoscopia aparece como uma via importante para tratar miomas, endometriose, cistos de ovário e alterações das trompas. Mais do que a técnica em si, ela destaca o preparo. “A gente não quer ter surpresa na hora da cirurgia. Quer chegar ao centro cirúrgico sabendo o que vai encontrar, com a equipe preparada para aquilo.” A lógica, segundo ela, é buscar uma abordagem resolutiva, evitando intervenções repetidas.
Essa visão também sustenta sua defesa da cirurgia minimamente invasiva. “Quanto mais cedo a paciente consegue levantar, andar e se alimentar, melhor tende a ser a recuperação.” Para Tamara, a vantagem não está apenas na incisão menor, mas na redução do trauma cirúrgico, no menor tempo de internação e no retorno mais rápido à rotina.
No consultório, essa precisão técnica convive com uma decisão prática que ela considera essencial: não atender com pressa. “Eu quis criar um espaço em que a paciente soubesse que seria ouvida com calma. Isso, para mim, faz parte do cuidado.”

O lado humano do cuidado
Na fala da médica, a escuta não aparece como complemento, mas como parte do próprio atendimento. Isso fica ainda mais evidente quando ela fala de pacientes com dor crônica, sobretudo as que convivem com endometriose. “Muitas chegam desacreditadas, até duvidando dos próprios sintomas, porque ouviram por muito tempo que aquilo era normal.”
Em vez de começar pelos exames, Tamara prefere começar pela história. “Eu não quero olhar primeiro para um monte de papéis. Quero ouvir a paciente, entender por que ela chegou até ali e o que aquilo representa na vida dela.” Para ela, muitas mulheres chegam ao consultório depois de anos sendo ensinadas a suportar dor, desconforto na relação sexual ou alterações do próprio corpo como se tudo isso fosse esperado.
Esse acolhimento também se estende a temas cercados de silêncio, como vaginismo, vulvodínia e falta de libido. Algumas pacientes, conta ela, já aparecem dizendo que desistiram da vida sexual porque a dor passou a ocupar todo o espaço. Nesses casos, o trabalho envolve diferenciar causas, tratar com apoio multidisciplinar e devolver à mulher a confiança no próprio corpo. “É muito marcante acompanhar a paciente quando ela volta diferente, mais segura, mais confortável com o próprio corpo.”
Dúvidas recorrentes e erros silenciosos
Entre os temas que mais se repetem no consultório estão a normalização da dor menstrual, o atraso no diagnóstico da endometriose, o medo automático de cirurgia e a associação imediata entre mioma e retirada do útero. Há também muita confusão em torno do uso de hormônios. “O hormônio pode ser muito importante, mas precisa ser usado com indicação, cuidado e acompanhamento.”
Outro ponto que a preocupa é a perda de tempo clínico no atendimento. Ela ainda se impressiona quando ouve de pacientes que nunca foram examinadas com calma. “O exame ginecológico exige explicação, respeito e confiança. A paciente precisa entender o que está sendo feito e se sentir segura naquele espaço.” Para Tamara, isso vale especialmente quando a consulta envolve dor, vergonha ou medo.
Planos e visão de futuro
Quando olha para os próximos anos, Tamara fala em aprofundar a atuação na cirurgia robótica e investir mais fortemente no ensino. Já dá aula em pós-graduação, acompanha residentes e participa da formação de médicos, mas quer avançar no mestrado e no doutorado. “Tenho cada vez mais vontade de atuar na formação de ginecologistas com um olhar cuidadoso, humano e individualizado para cada paciente.”
Esse desejo nasce daquilo que mais a afeta no consultório: receber mulheres que passaram por atendimentos em que não se sentiram realmente ouvidas. No centro dessa visão está uma ideia que atravessa toda a sua prática, da cirurgia à consulta sem pressa.
“A mulher precisa acreditar nas próprias queixas, no que sente. O mundo já tenta dizer o tempo todo que ela está exagerando ou que aquilo não é importante. Então, pelo menos no consultório, ela precisa sair fortalecida, respeitada e amparada. Se nem ali isso acontece, alguma coisa está errada.”
CRM: 5291802-4/RJ
Ginecologia e Obstetrícia – RQE: 36008
Laparoscopia e Histeroscopia – RQE: 36009
Instagram: @dratamarapaz
Site: https://www.tamarapazginecologista.com

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