Aos 34 anos, influenciadora derrete 80 kg e nutrólogo desvenda o ‘mecanismo de sabotagem’ do corpo
Após cirurgia, o organismo entra em 'modo sobrevivência' e luta para recuperar cada grama; médico analisa os riscos ocultos na vida da influenciadora

A influenciadora e dançarina Thais Carla (34) voltou a chamar a atenção da internet ao compartilhar uma nova etapa de sua jornada de saúde. Após passar por uma cirurgia bariátrica e eliminar mais de 80 kg, ela revelou ter atingido a marca de 115 kg.
Em entrevista, ela relatou o momento exato em que percebeu a necessidade de transformar sua relação com o próprio corpo. Mais do que números na balança, a influenciadora destacou mudanças físicas que impactaram diretamente sua qualidade de vida, como uma mobilidade muito maior e a nova facilidade de encontrar roupas nos tamanhos G e GG.
Mas o que acontece com o corpo — e com a mente — após uma perda de peso tão expressiva? Para entender os bastidores clínicos e metabólicos dessa transformação, a CARAS Brasil conversou com o médico nutrólogo Rubem Regoto, que desmistificou a fase de manutenção pós-bariátrica.
Quando o corpo luta contra o emagrecimento
Um dos maiores mitos sobre a cirurgia bariátrica é acreditar que o procedimento resolve tudo sozinho. Segundo o Dr. Rubem Regoto, a fase de manutenção exige atenção redobrada, pois o organismo reage de forma instintiva à perda massiva de quilos.
“O grande ‘desafio’ da bariátrica é que, muitas vezes, o corpo não entende a perda de peso como vitória, ele interpreta como ‘ameaça’ e tenta poupar energia. Principalmente se a perda de massa muscular também for grande (como é na maioria das vezes). Na prática, o metabolismo pode ficar mais ‘econômico’ (gastando menos), a fome pode reaparecer com o tempo e o corpo passa a ‘negociar’ com você: se a rotina perde estrutura, a obesidade recupera terreno. A manutenção vira um jogo fino de preservar massa magra, regular apetite e estabilizar glicemia, porque, sem músculo e sem rotina, o peso ‘escorrega’ mesmo com pouco excesso.”
Para evitar que o corpo entre em colapso nutricional, o monitoramento médico não pode parar. O especialista alerta que a falta de nutrientes é o principal fator de deterioração da saúde no pós-operatório.
“Muito importante falar nisso. Esse é claramente o principal fator de deterioração da saúde no pós-bariátrica. Pois o paciente pode estar não apenas ‘comendo pouco’, mas se nutrindo pouco e faltando muito por dentro. O acompanhamento essencial inclui exames seriados para: hemograma, ferro, ferritina (para avaliar anemia), vitamina B12, folato, vitamina D, cálcio e PTH (para avaliar saúde óssea), glicose, função renal e hepática. E, conforme a técnica cirúrgica e os sintomas, monitorar proteínas e outros minerais. Isso ajuda a evitar a perda de massa magra, queda de cabelo e outros problemas graves em outros órgãos, como fígado e rins.”

O reganho de peso e a fome emocional
É comum que pacientes voltem a ganhar peso anos após a cirurgia? O nutrólogo é categórico ao afirmar que sim e reforça a necessidade de tratar o tema sem tabus.
“Reganho é bem comum, principalmente alguns anos depois, quando o paciente sai do ‘modo empolgação’, deixa de ter acompanhamento intenso e entra no que chamo de ‘modo vida real’, só que essa vida volta sem mudança dos hábitos antigos. E aí… como manter resultados diferentes? A bariátrica funciona quando é uma ferramenta dentro de uma estratégia onde a base real são novos hábitos e, assim, um novo corpo é uma nova vida.”
Parte desse reganho está diretamente ligada à saúde mental. A cirurgia reduz o tamanho do estômago, mas não altera os gatilhos psicológicos que levam à compulsão alimentar.
“Porque a cirurgia muda o estômago, mas não apaga todo o circuito emocional envolvido na obesidade… Não muda a relação com a ansiedade, com o conforto, com a compulsão disfarçada de ‘merecimento’ ou ‘recompensa’. Se a comida era o botão de ‘pausa’ e de ‘relaxamento’ do cérebro, o risco é trocar aquele prato grande por ‘pequenas doses’ ou ‘beliscadas’ constantes. No consultório, eu costumo dizer: o corpo emagrece rápido; a mente leva mais tempo para aprender outra forma de se acalmar. Quando essa reeducação emocional acontece, o resultado fica muito mais estável.”
O que é um peso saudável?
Com a eliminação de dezenas de quilos, o paciente enfrenta um choque de realidade diante do espelho. A adaptação ao novo corpo exige tempo e, muitas vezes, suporte psicológico.
“A mente demora a atualizar o ‘mapa do corpo’. Tem gente que emagrece 80 kg e ainda se vê do mesmo jeito no espelho; outras pessoas olham e estranham a própria imagem. É um período de adaptação real. A maioria tem o corpo obeso há muitos e muitos anos. Ajuda muito combinar suporte psicológico — especialmente para questões de identidade, autocobrança e compulsões —, além de fortalecimento muscular e cuidados com a pele e flacidez. Estabelecer metas funcionais, como subir escada sem dor, sentar com conforto e brincar com os filhos, traz maior consciência corporal. É importante se adaptar à nova realidade. É como trocar de casa: você mora no novo corpo, mas precisa aprender onde ficam as coisas.”
Sobre a pressão estética por atingir um “peso ideal”, Dr. Regoto ressalta que o sucesso da cirurgia, assim como relatado por Thais Carla, é medido pela qualidade de vida.
“Varia, e aqui entra a parte mais humana: o objetivo não é caber num número, é caber na vida. Existe uma faixa de perda esperada que depende do tipo de cirurgia, do peso inicial e de como o paciente responde (genética, hormônios, rotina, comportamento). O que é ‘saudável’ costuma ser definido por um conjunto: melhora de mobilidade, pressão, glicemia, sono, disposição, dores, exames e qualidade de vida. No caso da Thais, ela descreve justamente esse marcador prático: liberdade de movimento e de experiências.”
7 pilares para manter os resultados da bariátrica
Para quem deseja evitar oscilações perigosas na balança e garantir longevidade aos resultados da cirurgia, o nutrólogo resume o protocolo de sucesso em sete passos essenciais:
- Proteína como prioridade: para segurar massa magra e saciedade.
- Treino de força como um ‘seguro metabólico‘: músculo é o que mantém o gasto energético.
- Rotina alimentar estruturada: menos beliscos, mais planejamento.
- Suplementação correta: individualizada e, muitas vezes, com uso de soroterapia venosa de vitaminas e minerais (devido à má absorção no pós-bariátrica).
- Sono e estresse sob controle: porque a fome e o impulso aumentam quando o corpo está em modo de estresse e ameaça.
- Acompanhamento regular: sim, o paciente vai ter acompanhamento para sempre, e não só quando dá problema.
- Plano de ação para recaídas: identificar gatilhos cedo e ajustar rápido.
“No fim, a manutenção não é ‘força de vontade eterna’. É, na verdade, uma estratégia repetida: simples, consistente e acompanhada”, conclui o especialista.
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