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Ao 65 anos, João Camargo fala do limbo na TV e avalia reta final de Êta Mundo Melhor!: ‘Momento mais difícil’

Nas últimas semanas em Êta Mundo Melhor!, o ator João Camargo abre o coração à CARAS Brasil sobre os difíceis períodos na TV, saúde mental e seus 45 anos de profissão

João Camargo em Êta Mundo Melhor! - Foto: Globo

Com a novela Êta Mundo Melhor! se aproximando de seus capítulos finais, o ator João Camargo (65) vive um dos momentos mais celebrados de seus quase 45 anos de trajetória artística. Brilhando duplamente nas criações de Walcyr Carrasco, ele conquista o público na TV na reta final da trama como o carismático Padre Lucas, e nos palcos com o rigoroso Doutor Batista, na peça O Cravo e a Rosa.

Em conversa exclusiva com a CARAS Brasil, o artista fez um balanço profundo sobre sua maturidade na profissão, revisitou personagens nostálgicos e revelou como sua personalidade molda as figuras que ganham vida nas telas.

Contrastes em cena

Vivendo uma imersão no universo de um dos maiores autores do país, João destaca a facilidade de Walcyr Carrasco em misturar sentimentos complexos em uma mesma obra. É essa montanha-russa de emoções que enriquece sua rotina de gravações e apresentações.

“O Walcyr Carrasco realmente tem um dom para escrever, um grande talento. Ele junta o humor com momentos de drama de uma forma brilhante. O ambiente com o elenco é muito bom, a gente brinca muito. O bastidor é muito divertido.”

Na TV, o ator divide a cena com figuras intensas, o que exige uma rápida adaptação:

“Tem horas que eu trabalho com humor na novela e, de repente, vem uma personagem com uma carga muito pesada, como a Sandra, e eu tento unir o humor com a seriedade dos momentos. […] É muito rico para mim transitar por esses tons de emoção.”

Essa mesma dualidade se repete nos palcos de O Cravo e a Rosa, onde ele explora as fragilidades de um homem conservador:

“O Doutor Batista, de O Cravo e a Rosa, é um personagem mais rígido, conservador, mas, ao mesmo tempo, é um pai que ama muito as filhas e vê que errou na educação delas. Ele tem até a coragem de pedir desculpas em uma cena. Essa cena, inclusive, sai da comédia e trabalha com o drama. É muito bom para mim fazer esses dois gêneros no mesmo espetáculo.”

Influência na construção do Padre Lucas

Um dos grandes sucessos atuais de João Camargo é o Padre Lucas. Para dar vida à ingenuidade e ao bom humor do religioso, o ator confessa que buscou características dentro da própria astrologia e de sua essência pessoal.

“O Padre Lucas realmente junta essa ingenuidade, que eu acho típica das pessoas que se dedicam à religião, com o bom humor, que vem da inteligência e da sacação das coisas. Eu sempre levo a minha personalidade para os personagens. Eu tenho também esse lado meio ingênuo, meio criança, até pelo meu signo, já que sou de Áries, o primeiro do Zodíaco. E bom humor eu tento ter sempre na vida, uso isso para fazer esse querido Padre Lucas que tem agradado tanto.”

João Camargo em bastidores de Êta Mundo Melhor! com Larissa Manoela, Cadu Libonati e Rainer Cadete – Foto: Instagram

O carinho nostálgico de “Cúmplices de um Resgate”

Apesar da vasta experiência, alguns trabalhos deixam marcas que o tempo não apaga. Ao olhar para trás, ele relembra com emoção o impacto que a teledramaturgia infantil teve em sua vida.

“Eu já fiz personagens incontáveis no teatro, na televisão, no cinema, mas tem um que eu tenho um carinho todo especial, que é o Ofélio, de Cúmplices de um Resgate. Pelo fato de ser uma novela infantil, ele me aproximou muito das crianças. Elas até hoje me escrevem nas redes sociais, estão virando adolescentes, então é muito emocionante. É um carinho que eu levo; elas vão crescendo e o afeto continua.”

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O temido “limbo” artístico e a visão nos bastidores

Nem tudo é glamour na vida de um ator. João reflete sobre as incertezas da profissão e os períodos de “entressafra”, alertando sobre a importância de cuidar da saúde mental.

“Fiquei muito pouco tempo afastado da televisão, porque quando não estou fazendo novela, estou fazendo um programa humorístico. Atuar em vários gêneros e formatos te deixa mais hábil para encarar qualquer proposta que vier. Os momentos mais difíceis são as entressafras, quando você está entre um trabalho e outro e ainda não definiu o próximo passo. Você entra numa espécie de limbo. Tem que ter uma cabeça muito boa, estar sereno, administrando a vida em outros setores e mantendo a rotina saudável.”

Para não depender apenas de convites, o veterano também assumiu as rédeas de sua arte atuando na direção e produção, o que transformou sua visão de jogo:

“Num certo momento da carreira, eu resolvi que tinha que dirigir também, estar do outro lado. Eu acho muito importante o ator produzir seus trabalhos, poder escolher o que quer fazer. Isso completa muito o profissional. Quando você dirige, percebe como é importante escutar o outro. Isso eu levei muito para a minha interpretação: estar escutando o colega. Produzir também me humanizou muito; a gente compreende melhor as dificuldades e dá até mais valor a um espetáculo teatral.”

Maturidade para os próximos capítulos

Com uma jornada consolidada, o brilho nos olhos de João Camargo permanece intacto ao receber um novo roteiro nas mãos. A receita do sucesso, segundo ele, é simples:

“Com a minha experiência e a carreira consolidada, considero que cada personagem novo é um desafio e é sempre estimulante. Eu costumo aceitar os convites e dar o melhor de mim. Essa acho que é a minha fórmula.”

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Confira a entrevista na íntegra com João Camargo:

CARAS – Após tantos anos de carreira, quando você olha para trás, qual personagem ainda te atravessa emocionalmente e por quê?

Eu já fiz muitos personagens incontáveis no teatro, na televisão, no cinema, mas tem um que eu tenho um carinho todo especial, que é o Ofélio, da novela Cúmplices de um Resgate. Talvez pelo fato de ser uma novela infantil, ele me aproximou muito das crianças, elas até hoje me escrevem nas redes sociais, estão virando adolescentes, então é muito emocionante isso. Ele era um amigo da protagonista, que era Larissa Manoela, ajudava ela, e isso encantou muito as crianças, então é um carinho que eu levo e que elas vão crescendo e o carinho continua. Então é por isso que esse personagem é muito especial para mim.

CARAS – Em Êta Mundo Melhor!, o Padre Lucas conquistou o público com sua ingenuidade e bom humor. O quanto desse personagem vem de quem o João é fora de cena e o quanto é construção como ator?

O padre Lucas realmente junta essa ingenuidade, que eu acho que é típica dos religiosos, das pessoas que se dedicam à religião. E bom humor que vem da inteligência, da sacação das coisas, que também o teólogo tem que ser muito inteligente e conhecer muito o ser humano. E eu sempre levo a minha personalidade para os personagens. E eu tenho também esse lado meio ingênuo, meio criança, até pelo meu signo, que eu sou de Áries, que é o primeiro do Zodíaco. E bom humor eu tento ter sempre na vida, e também uso isso para fazer esse querido padre Lucas, que tem agradado tanto, graças a Deus.

CARAS – Na novela, você faz parte de um núcleo que transita entre humor, vilania e drama. Como é essa troca com o elenco nos bastidores e o quanto essa diversidade de tons enriquece o seu trabalho em cena?

Isso é muito enriquecedor, porque tem horas que eu trabalho com humor na novela e, de repente, vem um personagem, uma vilã, por exemplo, como a Sandra, e eu tento unir o humor, mas com a seriedade dos momentos, porque ela vem com uma carga muito pesada. Eu fiz até uma cena que eu sinto um arrepio. E, quando ela sai, eu me sinto um arrepio. E o drama também vem muito através do personagem do Candinho, que ele está sempre lutando para conseguir impor a bondade, todas as características dele, e o mundo devolvendo, às vezes, de forma cruel. E o padre tenta consolá-lo e orientá-lo. Então, é muito rico para mim transitar por esses tons de emoção.

CARAS – Você vive um momento muito especial com textos do Walcyr Carrasco, tanto na TV quanto no teatro. O que faz da escrita dele algo tão particular para você? Existe um ‘segredo’ para acertar o tom da comédia que ele propõe?

O Walcyr Carrasco realmente tem um dom para escrever, um grande talento. E ele tem esse senso de humor também que fica muito nítido, tanto na peça O Cravo e a Rosa, que foi adaptada pelo Pedro Vasconcelos, como também na novela. Então ele junta esse humor com momentos de drama e de uma forma brilhante. É realmente um grande prazer estar fazendo uma obra dele, duas, na verdade. E com o elenco, o ambiente é muito bom, a gente brinca muito. O bastidor é muito divertido. E na hora, óbvio, de ver a emoção e tudo, é na hora de gravar. Mas estamos sempre nos divertindo, batendo papo, e isso é muito legal.

CARAS – No teatro, você dá vida a um personagem mais duro e conservador, bem diferente de muitos papéis queridos da TV. O que te atrai em interpretar figuras que não são exatamente simpáticas?

O doutor Batista, do Cravo e a Rosa é o personagem mais rígido, conservador, mas, ao mesmo tempo, ele é um pai que ama muito aquelas filhas e tudo, ele vê que errou na educação delas. Então é um personagem que transita entre esse lado rígido, conservador, mas muito humano também. E ele tem até coragem numa cena de pedir desculpas para a filha por não ter criado ela da melhor forma. Essa cena, inclusive, eu saio da comédia, que a peça é uma comédia, não é? E essa cena trabalha com o drama. É uma cena dramática, então é muito bom para eu fazer esses dois gêneros no mesmo espetáculo.

CARAS – Ao longo da carreira, você transitou entre atuação, direção e bastidores. Em que momento percebeu que precisava ir além de estar apenas em cena?

Eu comecei minha carreira no teatro já fazendo assistência de direção do Flávio Rangel. Foi uma escola maravilhosa. E até contra-regragem eu fiz. E, num certo momento da carreira, eu resolvi que eu tinha que dirigir também. Está do outro lado, né? Então, dirigir uma peça e produzir também. Produzir duas peças, que também é um aprendizado. Eu acho muito importante o ator produzir seus trabalhos, poder escolher o que quer fazer. Então, eu aprendi muito. Eu acho que o ator deve estar em todos os campos, tanto em cena quanto como produtor, se possível na direção também. Eu acho que isso completa muito o profissional.

CARAS – Estar do outro lado da câmera mudou a forma como você atua hoje? Você se pega analisando tudo de forma mais técnica ou consegue desligar esse olhar quando está atuando?

Eu dirigi teatro, muda um pouco sim, você quando dirige você percebe que é tão importante você escutar o outro. Porque quando você está dirigindo você está vendo dois atores ali e aí você vê a importância da escuta de um ator estar escutando o outro. E isso eu levei muito para a minha interpretação, estar escutando o colega. Isso aí eu cresci muito como ator também. E como produtor a mesma coisa. A gente compreende melhor as dificuldades do ator e me humanizou muito também produzir. E dá até mais valor a um espetáculo teatral, por exemplo, por saber das dificuldades que a gente enfrenta para poder montar uma peça.

CARAS – Ficar um período afastado das novelas foi uma escolha ou algo que o mercado acabou impondo? O que esse tempo fora te ensinou sobre você e sobre a profissão?

Eu fiquei muito pouco tempo afastado das novelas, quer dizer, da televisão, porque quando eu não estou fazendo novela, estou fazendo um programa humorístico, sempre atuei nesses dois setores da televisão. Fiz muito Zorra Total, aí fazia uma novela, depois fiz, agora recentemente estou de graça, depois volto para a novela. Então isso é maravilhoso, não é? Você atuar em vários gêneros, em vários formatos, você fica mais hábil para poder encarar qualquer proposta que vier.

CARAS – O público costuma idealizar a carreira do ator, mas nem sempre imagina os desafios. Qual foi o momento mais difícil da sua trajetória artística?

Os momentos mais difíceis são sempre, embora necessários, os que eu chamo de entressafras, quando você está entre um trabalho e outro, e muitas vezes você ainda não definiu qual é o seu próximo trabalho, você entra um pouco assim numa espécie de limbo. Então você tem que ter uma cabeça muito boa, está muito sereno, está administrando a sua vida em outros setores, aproveitando para ver a questão da saúde, mantendo a sua rotina saudável de exercício e de alimentação. Então esses períodos entre um trabalho e outro eu considero os mais difíceis, e graças a Deus esses períodos para mim sempre foram curtos, eu fiquei muito tempo assim sem ter trabalho e acho que tive sorte nesse sentido.

CARAS – Hoje, com mais maturidade e uma carreira tão consolidada, o que mudou na forma como você escolhe seus trabalhos — e o que ainda te move a dizer ‘sim’ para um novo personagem?

Eu considero que, com a minha experiência, com essa maturidade, com a carreira consolidada, considero que cada personagem novo é um desafio e é sempre estimulante. Eu costumo aceitar os convites e dar o melhor de mim. Essa acho que é a minha fórmula.

GABRIELA CUNHA é jornalista graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Especialista em entretenimento, atua na cobertura editorial de televisão, celebridades e comportamento, com foco em notícias e análises