Aos 43 anos, Alinne Rosa fala da batalha contra a depressão: “Estou me sentindo viva de novo”
Cantora lança álbum, planeja carnaval inesquecível e reflete sobre saúde mental

Conhecida pela alegria que só a música baiana tem, Alinne Rosa (43) surpreendeu o País ao abrir o coração para falar sobre depressão. Corajosa, a cantora se despiu da vaidade e expôs suas fragilidades para o público, que imediatamente a acolheu. Resultado? Ela transformou dor em arte! Seja por meio de telas e paredes pintadas pela casa, ou em música, como as de seu mais recente álbum, As Canções Que Ela Fez pra Mim, que marca uma virada de chave na vida e na carreira da artista. “Estou começando uma nova era. Estou me sentindo viva de novo. Olho pra trás com muito orgulho, mas também tenho muita felicidade de olhar pra frente, com outro jeito de encarar a vida”, afirma a estrela.
Fase mais criativa
Com mais de 20 anos de carreira, sendo os primeiros dez deles à frente da banda Cheiro de Amor, só agora Alinne assina, pela primeira vez, a autoria de todas as faixas de um projeto. “No Cheiro eu era contratada, não tinha muita autonomia para fazer certas coisas. E depois, na minha carreira solo, fui amadurecendo isso, mas não foi de imediato. Eu fui me descobrindo artista de verdade, de pôr a mão na massa aos poucos. Mas aí veio um período que eu não estava tão bem, então muita coisa ficou embaixo do travesseiro, só nos meus pensamentos. E, agora, estou num momento de muita criatividade e é tão gostoso de colocar pra fora. Já estou pensando até em escrever para outras pessoas”, conta.
Depressão
Além de ser intérprete e compositora das canções, a baiana também participou de toda produção musical. “Nesse álbum me senti um pouco mais leve. Sou muito autocrítica, e estou trabalhando isso na terapia”, diz a ariana, que vê o projeto como uma espécie de renascimento, afinal, após longo período lidando com a depressão, ela vive uma fase criativa. “Quem está passando por essa fase de depressão sabe que a gente tem muitos pensamentos ruins; é difícil pensar positivo e ter autoconfiança. Eu vivi um pouco no automático. As pessoas que me conheciam intimamente falavam que não acreditavam como eu conseguia entregar tudo no palco e voltar para casa e estar em depressão. Era uma coisa que eu fazia no amor mesmo, naquela força que eu não sei de onde vinha. Depois comecei a me recuperar, e foi aí que eu resolvi dar uma sacudida na minha vida”, explica.
Em meio às tentativas de melhora, Alinne chegou a encontrar uma médica que a questionou se ela não deveria mudar de profissão. “Quando ela falou isso, eu fiquei arrasada. Mas foi porque, de fato, a rotina de shows, de artista, vai de encontro com a saúde mental, porque você perde a noite. E o sono, para quem tem problemas de transtornos mentais, é fundamental; é como um remédio. Então, você perde noites; com o estresse da correria do artista, você acaba ficando mal”, diz a cantora. E, apesar de entender a fala da especialista, ela se chocou com o que ouviu. “Me soou como um absurdo. Isso é a minha vida; não tenho condição de viver sem. Eu tenho que achar um jeito de minimizar o estresse da estrada, tentar colocar o show um pouco mais cedo, e ir fazendo o meu malabarismo mesmo”, completa.
Depois de algumas tentativas, ela encontrou o melhor tratamento. “É importante falar que, quando você encontra um médico que te entende, que coloca você para fazer o tratamento certo, sua vida começa a voltar a andar. Eu fiquei muito tempo num tratamento que não estava dando certo. Até por falta de força mesmo, de procurar outras saídas”, recorda.
Vida dupla
Lidando com a doença há mais de sete anos, a artista entendeu a importância de falar sobre saúde mental. “Eu queria ter esse momento de coragem. Demorei muito, porque vivia uma vida dupla. As pessoas me cobravam para eu estar mais engajada na minha vida artística, para fazer mais ações, e eu não conseguia”, lembra. Apesar de nunca ter deixado o palco, na época, a cantora fez até uma pausa em compromissos como participações em programas de TV. Por isso, abrir o coração e contar o que estava enfrentando foi uma libertação. “Foi no momento certo; estava bem para falar, recebi apoio e muitas pessoas se abriram comigo, por meio de mensagens, para falar que estavam passando por situações parecidas. E vejo o quanto é importante você falar e se despir dessa capa de artista intocável, distante. É importante porque é uma doença que ainda enfrenta preconceito. Quando a gente que tem voz chega a outras pessoas e fala, isso dá força para elas procurarem ajuda também”, acredita.
O novo álbum transita entre samba-pop, afrobeat e o reggae leve, mas sem perder o tempero do axé, sua marca registrada, e traduz com a atual fase de Alinne. Em Acredite no Seu Axé, última canção do projeto, a baiana fala de seu íntimo, do que viveu e de suas vulnerabilidades. “Gosto muito de ser gente. Então, agora, mais do que nunca, estou sendo eu de verdade. Sempre gostei de ser gente, mas faltava falar mais a real do que estava aqui dentro”, afirma a artista, hoje em estado de plenitude. “Eu tenho depressão recorrente, então tenho que estar sempre observando, sempre com o acompanhamento do psiquiatra, da psicóloga e com rotinas. Posso dizer que estou bem, estável. Mas é aquilo: trabalhando sempre, observando sempre. É importante você se auto-observar para perceber um sinal se estiver saindo do prumo, para já procurar ajuda e não mergulhar tanto na depressão. É com o tempo que você aprende a lidar com você mesmo. Mas estou bem acompanhada, bem assistida e com uma rede de apoio maravilhosa”, afirma.
Carnaval
O carnaval deste ano terá um significado ainda mais especial para ela. “A gente vai tocar a maioria dos dias em Salvador, mas também em Minas Gerais e Sergipe. Eu vou sair com o bloco Vale, que já tem 7 anos e é um presente, todo ano fica esgotado. Estou preparando coisas, me sentindo mais solta com a minha criatividade, conseguindo fazer o que quero, com uma banda superafiada, então vai ser um carnaval inesquecível para mim e para quem pular comigo”, garante a cantora, que anunciou Só Tem no Brasil como tema de seus dias para curtir a folia. “Vamos pegar o puro suco do Brasil, misturar no liquidificador e jogar na avenida. Exaltar nossa brasilidade!”, adianta.
Plenitude
Se em Acredite no Seu Axé a baiana questionou quem rega essa rosa quando ela enfraquece, a empolgação ao falar do encontro com os fãs no festejo já responde à pergunta. “São tantas coisinhas que regam essa rosa. Durante muito tempo, precisei eu mesma me regar; tive que olhar para dentro de mim. Mas, com certeza, estar no palco, no trio, com tantas pessoas maravilhosas, me enchendo de amor, me rega demais. Minha rede de apoio, meus fãs e minha família são fundamentais para essa rosa crescer e florescer”, afirma Alinne.
Para ela, estar nos palcos, no trio, na avenida e com seu povo é o mesmo que voltar para casa: “Estou voltando de fato. É como eu estou me abraçando, me tocando, me sentindo. Estou aqui, agora, estou presente, entendendo minhas vulnerabilidades, assumindo todas elas e as pessoas estão entendendo. É difícil você mostrar as suas rachaduras e sentir que as pessoas estão ajudando a tapar. Eu estou me sentindo assim. Viva, plena!”, finaliza.









