Médico alerta sobre câncer de pulmão em jovens após morte de Vanessa Rios: ‘Situação muito complicada’

Cantora Vanessa Rios morreu aos 42 anos; especialista explica sinais ignorados, riscos e desafios no tratamento

Vanessa Rios - Reprodução: Instagram

Há um mês, a morte da cantora pernambucana Vanessa Rios, aos 42 anos, vítima de um sarcoma sinovial pulmonar, reacendeu uma discussão difícil dentro da oncologia: por que tantos pacientes jovens chegam ao diagnóstico de câncer de pulmão tão tarde? O tumor, historicamente associado ao tabagismo e à terceira idade, hoje apresenta perfis muito mais variados — e, segundo especialistas, ainda subestimados.

Para esclarecer dúvidas e alertar o público sobre sinais, riscos e dificuldades do tratamento, a CARAS Brasil conversou com o oncologista Dr. Ramon Andrade de Mello, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia.

Sinais atípicos em pacientes jovens: o que costuma atrasar o diagnóstico

De acordo com o especialista, a ausência de sintomas específicos continua sendo o maior obstáculo no câncer de pulmão — especialmente entre pacientes mais jovens, sem tabagismo ou com histórico pouco sugestivo.

“O diagnóstico do câncer do pulmão é uma situação muito complicada”, explica. Segundo ele, muitos pacientes não apresentam nada além de tosse leve ou discreta falta de ar, o que faz com que casos como o de Vanessa — jovens e sem fatores clássicos — sejam facilmente ignorados. O oncologista afirma que perguntas simples do cotidiano poderiam acender o alerta mais cedo, principalmente em pessoas com histórico familiar.

Como dar esperança sem criar falsas expectativas em casos avançados

Um dos maiores desafios, segundo Dr. Ramon, é lidar com a expectativa de cura em cenários onde o tumor já está avançado, mesmo quando existem mutações tratáveis.

Isso se relaciona com o luto e com a perda. Muitas vezes existem opções limitadas, mas as pessoas não aceitam e buscam alternativas milagrosas”, alerta.

Ele ressalta que essa vulnerabilidade abre espaço para terapias sem comprovação científica. Por isso, uma abordagem realista — e acolhedora — é essencial: “É muito importante conversar abertamente com o oncologista e contar com apoio multidisciplinar, incluindo psicólogos e assistentes sociais”, afirma.

Testes moleculares

Segundo o oncologista, os testes moleculares transformaram o tratamento do câncer de pulmão. Porém, o acesso ainda é complexo.

De acordo com ele:

  • Alguns painéis modernos não são cobertos pelos convênios;

  • Resultados podem levar 20 a 30 dias;

  • Tratamentos indicados após esses testes nem sempre são aprovados pela Anvisa, o que impede o reembolso.

É uma área da oncologia com muitos desafios”, pontua.

Como enfrentar o impacto social e emocional do câncer de pulmão

O estigma ligado ao tabagismo ainda pesa, causando culpa e isolamento em muitos pacientes — inclusive nos que nunca fumaram, caso de parcelas crescentes dos diagnósticos. Dr. Ramon reforça que é essencial separar tratamento de julgamento. Conforme o médico, primeiro o paciente precisa reconhecer o tabagismo como um problema, e depois buscar ajuda. A desabituação é fundamental — mas sem culpa, sem estigma. Ele lembra que campanhas e suporte psicológico são essenciais para reduzir o impacto social e emocional da doença.

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Dr. Ramon Andrade de Mello (CRM-SP: 181245 RQE: 67356) Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Pós-Doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPQ (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico), Brasil, vice-líder do programa de Mestrado em Oncologia da Universidade de Buckingham (Inglaterra), Doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Tem MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), São Paulo. É pesquisador e professor do Doutorado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), de São Paulo. Membro do Conselho Consultivo da European School of Oncology (ESO). O oncologista tem mais de 122 artigos científicos publicados, é editor de 4 livros de Oncologia, entre eles o Medical Oncology Compendium, Elsevier, de 2024. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru, SP. Instagram: @dr.ramondemello